terça-feira, janeiro 31, 2006

VENDEDOR DE REVISTAS POR TELEFONE


Um dia normal, como outro qualquer, eu tava em casa me preparando para assistir um filme no DVD, como na ilha existe uma doença que chamo de solidão cultural, na realidade nem existe mais, pois hoje já tem varias curas. Mas nessa época ainda sofríamos desse mal. O telefone toca, e toca mais, geralmente eu deixo o telefone tocar umas 5 vezes para poder atender, motivo esse que criei para ter certeza, ou quase certeza que o assunto é de interesse de quem ta ligando. Como tinha algumas vezes que eu deixava tocar até a campainha ficar rouca de tanto chamar. Mas nesse dia eu estava de bem com a vida e embora eu tivesse que assistir ao filme, me dei à oportunidade a atender ao telefone. Alô, e do outro lado a pessoa fala, - Boa tarde, é da residência do Sr. Roberto? Eu respondi que não, é da casa do Ju Medeiros. Oh me desculpe senhor meu nome é Cláudio sou da editora abril e temos uma... daí eu vi já a merda que tinha feito ao falar meu nome para o distinto cidadão. Mas já era tarde e tive a idéia de criar uma história chata na hora e comecei a falar sem dar tempo a ele.
Oh meu amigo, que bom você ter ligado agora, estou sozinha aqui em casa, eu resido numa ilha, não tenho amigos, nenhum gosta muito de mim aqui, a única pessoa que falava comigo era minha tia e ela faleceu semana passada. E ele do outro lado só falava, - pois não Sr. É uma pena Sr., eu compreendo, mas.. e eu não deixava ele começar nenhuma frase e continuava. – e foi bom o senhor me ligar, minha tia era uma pessoa maravilhosa, velhinha mas de uma fé muito grande na igreja batista, o senhor é da igreja batista? E ele, - Não senhor, mas tenho muita fé. Mas o senhor gostaria de participar da igreja batista? Não senhor, agora no momento não. E deixei-o começar a falar com uma pergunta, mas sim, o que o senhor deseja? Ele já meio ofegante começa a falar. - Sou da Editora Abril e temos muitas revistas interessantes para uma pessoa como o senhor, temos por exemplo a revista, eu cortei a fala dele e perguntei por cima, o senhor tem alguma revista que fale sobre saúde? Sobre pessoas idosas? E ele responde, - temos sim tem a revista tal que abrange esses assuntos. E eu mais uma vez cortando a fala dele. – porque me interessa esse assunto, pois minha tia morreu de uma doença muito estranha, começou uma feridinha no dedo medinho esquerdo, e ela coçava muito, e sempre passávamos areia de praia, pois disseram que as águas de Noronha curava por causa dos golfinhos que passavam os dias lá. Na realidade eu contava historias mirabolantes para que ele fosse cansando tanto de ouvir como de querer entender. E falava, mas desculpe Senhor?? Como é mesmo seu nome? Cláudio senhor, meu nome é Cláudio, pois bem seu Clovis, ou desculpe, Sr. Cláudio, pode falar, terminou eu falando mais que o senhor né? – é senhor, o Sr. Fala muito mesmo, mas é assim que deve ser, o senhor aí sozinho numa ilha e ainda mais com a perda da Sra. Sua tia não é? É respondi e quando já ia começando a falar ele já sacando a situação dessa vez foi quem me cortou a fala, e u por cima com um tom mais grave e gaguejando e tossindo ao mesmo tempo - O senhor ta falando por cima da minha voz, como pode, eu não posso entender nada, e ele falou, desculpe senhor, olha eu ligarei um outro dia se o senhor não se incomodar, pois no momento o senhor ta em luto, e eu cortando a voz dele novamente, não!! Pelo amor de Deus, vamos conversar, olhe meu amigo, minha tia morreu faz uma semana e eu dou graças a Deus e aleluia ao senhor Jesus por ter atendido esse telefone, e aproveito para pedir desculpa pela demora em atender, é que eu tava no quarto olhando meu dedo medinho, tem uma feridinha que parece a da minha tia. E do outro lado a linha, tum tum tum tum.

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